Naomi Campbell é uma das personagens mais populares já criadas por Skins. Não apenas uma das metades do casal mais famoso criado pela série, a adolescente sárcastica, inteligente e politicamente engajada conquistou uma legião de fãs apenas com a sua personalidade marcante, unida ao talento imensurável da atriz Lily Loveless.

PERSONALIDADE – “I’m Naomi. I hate injustice.”

Naomi é apresentada aos fãs no primeiro episódio da terceira temporada como uma garota fechada,  sarcástica e um tanto mal-humorada. Seu jeito de “durona” pode até nos enganar no começo, mas é escavando um pouco mais em sua personalidade que achamos um lado mais sensível da personagem. É justamente nesse contraste que se apoia seu arco na terceira temporada. A Naomi fechada que encontramos na maior parte do tempo e uma Naomi mais aberta e sensível que aos poucos se revela na história, construindo uma personagem complexa e interessantíssima.

Esse contraste já aparece mesmo antes da temporada em si: a maioria dos fãs deve se lembrar dos trailers interativos que o canal E4 liberou antes da S3 estrear, como uma maneira de nos introduzir aos novos personagens. O trailer de Naomi nos dava uma impressão, digamos, positiva, sobre ela, que parecia ser uma menina solta, sorridente e disposta a fazer amizades. Por que, então, no primeiro episódio a vimos como o oposto disso? Caras emburradas e sarcasmo não são exatamente o melhor jeito de fazer amigos. Na verdade, é como se a intenção de Naomi fosse afastar as pessoas dela. Porque Naomi não precisa de amigos ou pelo menos é isso que ela quer que os outros acreditem. Ou, melhor dizendo, é nisso que ela quer que ela mesma acredite. E mesmo que, na superfície, ela se engane perfeitamente, no fundo ela sempre desejou se enturmar. Por que outra razão ela teria ido ao aniversário de Cook, no 3×02, e depois ajudado Thomas a vender drogas no 3×03? É legal também reparar que, no 3×03, ela chegou sorrindo, como se estivesse empolgada com a ideia de ter um grupo de amigos, e assim que Katie a ofendeu, todas as barreiras subiram novamente e ela, demonstrando cansaço, virou-se para ir embora do local.

O que tiramos disso é que Naomi se divide em duas: o que ela gostaria de ser e o que ela realmente é. Enquanto a garota alegre e extrovertida do trailer é um ideal para Naomi, as barreiras que ela constrói ao redor de si contra o mundo a impedem de simplesmente ser. A verdade sobre Naomi é que ela pensa demais. É difícil para ela só jogar tudo para o alto e ser inconsequente e livre. Tudo para ela, até as decisões mais simples, exige horas de reflexão, por isso Naomi constantemente se encontra presa em seu mundinho de receios, escuridão e finais infelizes, e deixa a oportunidade de viver passar direto por ela.

Essa dualidade em sua personagem pode causar não apenas situações paradoxais, mas uma má interpretação de suas ações. Seu exterior pode parecer cínico, mas ela não é. Naomi é aquilo que chamamos de sonhadora, mesmo que às vezes ela não deixe isso transparecer. Ela tem vontade de mudar o mundo; tem esperança nele. Naomi acredita que o mundo pode ser mudado e é nisso que ela se empenha. Essa não é a visão de um cínico! É a visão de alguém disposta a lutar pelos seus ideais.

Acima de tudo, Naomi é uma garota tentando se encaixar e achar o seu lugar nesse mundo. E é ai que entram seus amigos e familiares, aqueles que a ajudarão a encontrar a Naomi Campbell verdadeira, a compreendendo e pouco a pouco derrubando suas barreiras.

RELACIONAMENTOS – “The people that make us happy are never the people we expect.”

• Gina Campbell: “You made my life complete.”

Como com qualquer pessoa, a relação que primeiramente definiu Naomi foi a com a sua família – mais especificamente com sua mãe, Gina. Naomi cresceu no ambiente criado por ela, ou seja, numa casa tumultuada, barulhenta e cheia de estranhos. Gina não tinha condições para cuidar de uma filha, uma vez que seu quadro mental era frágil: sua depressão tornava impossível trazer qualquer tipo de estabilidade para Naomi (“Sometimes she’s up, sometimes she’s down”), portanto, como figura materna, ela falhou ao proporcionar um lugar seguro, onde Naomi poderia se sentir bem e confortável. Em vez disso, a menina passou sua infância e adolescência num completo caos; exatamente o oposto do que uma criança procuraria no colo de uma mãe. Toda a agitação e desordem da casa eram parte das desperadas tentativas de Gina de preencher o vazio deixado por  sua condição, e consequentemente o conforto de sua filha (que deveria ser a prioridade) foi deixado de lado; essa decisão obviamente criou marcas na personalidade de Naomi. Marcas que ajudaram a moldar a pessoa que viemos a conhecer no 3×01.

Imagine crescer em uma casa onde desconhecidos entram e saem o tempo todo. Imagine procurar sua mãe, buscando apoio, e encontrar rostos nunca antes vistos. Pessoas em que ela não pode confiar. Essas situações definitivamente influenciaram a personalidade de Naomi. Esse solo instável foi propício para o desenvolvimento dessa garota sarcástica e meio rabugenta, que mantém as barreiras sempre levantadas contra o mundo. Naomi não podia se dar ao luxo de relaxar, pois ela era a sua única estabilidade. É claro que essas características não são exclusivas de sua criação (Naomi é introvertida por natureza), mas esse ambiente apenas contribuiu para intensifica-las.

Mas não se engane – a vida que Naomi levava não era por falta de amor por parte da Gina. Gina ama Naomi, e muito. Ela pode não ser a melhor mãe do mundo, ou ter o estado mental perfeito para cuidar de uma criança, mas é vísivel que as duas se importam e amam muito uma a outra. Um bom exemplo disso é a conversa ao final do 3×06. Gina se importa com Naomi, verdadeiramente, e isso a redime, mesmo que nem sempre isso seja o suficiente.

• Kieran: “I wanted to trust you.”

Na falta de uma figura adulta de confiança em casa, Naomi encontrou uma em Kieran, seu professor de Política no Roundview. Kieran não é o professor mais ideal do mundo: não demonstra a menor vontade de ensinar, vive de mau humor e não gosta muito dos seus alunos, que ele julga desinteressados. Naomi, que é bem inteligente e parece estar num nível acima do de seus colegas, é a exceção para o taciturno professor, que acabou desenvolvendo uma certa afeição por ela, logo retribuída. Uma forte amizade foi formada entre os dois “deslocados”, e Naomi passou a ver nele alguém com quem ela podia ser ela mesma e desabafar; falar sobre sua mãe, sobre si, seus problemas. Isso é algo inédito para a menina, que nunca conseguiu ter um relacionamento assim antes, e foi por isso seu mundo praticamente caiu quando Kieran rompeu a confiança e a beijou; “I wanted to trust you!” é uma fala tão impactante porque nos damos conta de que essa foi a primeira vez que Naomi se entregou a um relacionamento, e no final ela foi desapontada.

• Emily Fitch: “I know you, Naomi.”

Uma coisa é inegável: de todas as pessoas com as quais Naomi se relacionou, a que mais teve impacto sobre ela foi Emily. Como Emily disse no 3×06, Naomi precisa de alguém que a queira. E o que isso significa? Que, enquanto todos ao redor de Naomi, acreditam na mentira e se deixam levar pelo exterior “I don’t give a shit” dela, Emily insiste em conhecer a Naomi por trás da máscara. Mesmo tendo vindo de uma família grande e tendo até mesmo uma irmã gêmea, Emily sempre passou meio despercebida; a garota era familiar com a solidão e compensava a sua própria tentando acabar com a dos outros. É por isso que ela ajudou Naomi em 3×06 e JJ em 3×07 – ela exala altruísmo e vontade de ajudar.

E Emily não se empenha apenas em perseguir Naomi; ela presta atenção nela. E, pacientemente e gradualmente, vai desvendando todos os mistérios que a cercam, até deixa-la completamente vulnerável e exposta. As cenas delas no quarto de Naomi, no 3×06, são bons exemplos do poder que Emily tem sobre a outra menina, que até então nunca tinha parecido tão feliz e descontraída.

Emily também enxerga a capacidade de Naomi, e acredita nela (“Do you think I can do it?” “I think you can do anything.”). Naomi quer mudar o mundo, e basta Emily dar um empurrãozinho para que ela ganhe a coragem suficiente para correr atrás do que quer, e atingir todo o seu potencial.

A dinâmica que existe entre Naomily é uma das melhores porque ambas as personalidades não são apenas compatíveis, como também genuinamente se complementam. Emily e Naomi se balanceiam: Emily representa a simplicidade e inocência que faltam a Naomi. Naomi representa a esperança – de se livrar da sombra de sua irmã, de confrontar sua mãe, de finalmente estar livre para ser ela mesma – que falta a Emily. E ambas deram uma a outra a coragem necessária para enfrentar seus medos.

Deixamos então Naomi e Emily no final da terceira temporada como um casal formado, estável e apaixonado. Mas não é exatamente assim que elas se encontram no 4×01.

Para entender a transição que ocorreu nesse curto período de tempo, é necessário saber o que aconteceu durante as férias. Essa história pode ser encontrada no livro Skins – The Novel. Vemos ai uma Emily muito mais segura e confiante. Por que não estaria? Ela saiu da sombra da irmã, ganhou independência, enfrentou a mãe, descobriu a sua sexualidade, e ainda de quebra ganhou a garota. Esse súbito ganho de poder traz a tona um lado da personalidade de Emily que nunca vimos antes: Emily está também mais controladora e egoísta. Durante o livro Emily “domina” a vida de Naomi, tomando decisões importantes por ela, como em assuntos da faculdade, por exemplo. Esse lado trouxe de volta uma já bem conhecida faceta de Naomi: a garota assustada, insegura, fraca. Ela não quer se sentir presa, escrava de Emily E dos sentimentos que nutre por ela.

Naomi traiu Emily para não se sentir presa e essa traição mudou a dinâmica de sua relação. Criou algo tóxico, que antes não estava lá. A falta de confiança, a punição da Emily, as brigas; tudo foi criando uma grande bola de neve que quase destruiu o que elas tinham.

E essa história se encerra, finalmente, no discuso feito pela Naomi ao final da temporada, transcrito abaixo:

“I’ve loved you since the first time I saw you. I think I was twelve. It took me three years to pluck up the courage to speak to you. And I was so scared about the way I felt, you know, loving a girl, So I learned how to become a sarcastic bitch to kind of feel normal. I screwed guys to make it go away, but it didn’t work. When we got together it scared the shit out of me. Because you were the one person who could ruin my life. I pushed you away. I made you think things were your fault. But really I was just terrified of pain. I screwed that girl, Sophia, to kind of spite you for having that hold on me, and I’m a total fucking coward because I got these these tickets to Goa for us three months ago, But I, I couldn’t stand… I didn’t want to be a slave to the way I feel about you, can you understand? You were trying to punish me back and it’s horrible. It’s so horrible, because really… I’d die for you. I love you. I love you so much, and it’s killing me.”

Apesar de romântica, a fala de Naomi pode ser bastante incoerente com a personagem que foi construída durante as duas temporadas e a qual descrevemos aqui.

“And I was so scared about the way I felt, you know, loving a girl, So I learned how to become a sarcastic bitch to kind of feel normal. I screwed guys to make it go away, but it didn’t work”. Essa frase não condiz com a personalidade da Naomi. Naomi não é sarcástica porque é lésbica. Naomi é sarcástica por muitas outras razões: sua personalidade, sua infância, suas “barreiras” e todos os motivos já discutidos aqui. Essa fala é pegar o desenvolvimento da Naomi e ignorar – é transforma-la em um estereótipo de lésbicas, já visto tantas vezes na televisão e em outras mídias. É basicamente dizer que, durante 12 anos de sua vida, Naomi foi uma casca vazia e que apenas construiu uma personalidade quando se apaixonou por Emily. NÃO.

O discurso foi um jeito preguiçoso de encerrar uma história problemática. Mais do que isso, foi uma destruição da personalidade da Naomi e uma maneira de tirar a originalidade de Naomily para transformá-las num casal lésbico clichê, infelizmente.

• James Cook: “Fuck you.” “Fuck you right back.”

Já a relação entre Cook e Naomi ganha o seu primeiro momento à luz no episódio 6 da terceira temporada. Como era de se esperar, os dois não se dão bem logo no início. Como poderiam? Eles são completos opostos: Cook, imprudente, despreocupado, escandaloso e ousado. Naomi, preocupada, consciente, reservada e introvertida. Eles se chocam. As duas personalidades são tão diferentes que, num primeiro momento, é impossível imaginar nada mais do que um desentendimento mútuo. Naomi se importa, enquanto Cook faz questão de mostrar que “não dá a mínima” (“Do you want to know my slogan? I’m Cook. Vote for me. I don’t give a fuck either.”) Ele ri de Naomi por se importar com as coisas.

Mas é claro que essa relação não fica por ai. Porque por mais que eles sejam completamente diferentes na superfície, Naomi e Cook também conseguem se identificar um com o outro. Os dois percebem, com o tempo, que essa pose que eles mostram para o mundo não é verdadeira. Cook não é necessariamente essa pessoa que não liga para nada; ele pode se importar, ele pode querer mudar as coisas. Ao mesmo tempo que Naomi é mais do que essa garota sarcástica e mandona. Ela é frágil e de bom coração. Eles se refletem:  Naomi e Cook veêm um no outro as barreiras que eles mesmos contruíram contra o mundo.

A coisa mais importante sobre esses dois é que eles se entendem. Completamente e melhor do que ninguém (“You fancy me, I’m cool with it. So there’s obviously another reason why you won’t fuck me and it’s probably a good one because you’re, you know, clever.”/”You’re a lot nicer than what most people think, aren’t you, Cook?”). Não existe ninguém na vida da Naomi como o Cook e nem vice versa. Nem Emily, nem Effy, nem Freddie ou JJ. Porque eles enxergam um ao outro sem nenhum tipo de filtro, ilusão ou expectativa. Eles simplesmente se entendem, sem esperar nada em troca.

SEXUALIDADE – “Maybe I only like boys, apart from you.”

Uma das maiores diferenças entre Naomi e Emily é que Emily é 100% gay. Em poucas palavras, ela é sexualmente atraída por garotas. Ou seja, se Naomi fosse um garoto, Naomily jamais seria um casal. Porque Emily NÃO PODE ser forçada a ser atraída por garotos, e um relacionamento romântico menos a atração se iguala a uma amizade. Emily apenas gosta de garotas e nada mudará isso.

Mas Naomi é diferente. Ao contrário de Emily, nem uma vez sua sexualidade foi deixada clara, e isso é porque ela não tem uma sexualidade. Ela odeia rótulos, e odeia ser rotulada, não apenas por medo do que as pessoas pensam, mas também porque rótulos a limitam.

Naomi gostava de garotos (de acordo com o blog dela no site oficial de Skins, ela até mesmo costumava ter uma crush num garoto e chegou a sair em encontros com ele, e ficou chateada quando ele não a beijou). Então conheceu Emily e percebeu que gostava dela. Depois ela beijou Emily e percebeu que gostava de beijá-la. O que isso significa? Que Naomi era hétero, e quando conheceu Emily se tornou gay? Não! Naomi ainda gosta de garotos, mas ela ama Emily e é isso que faz a diferença.

Se Emily fosse um menino, a história de Naomily seria quase a mesma: Naomi ainda teria medo, ainda fugiria, e ainda trairia. Porque o problema dela NUNCA foi estar apaixonada por uma garota. O problema sempre foi estar apaixonada por Emily, que por acaso é uma garota.

Talvez haja poucas evidências de que Naomi seja bi, mas tampouco existem provas de que ela goste exclusivamente de garotas também. E isso é perfeito! Nós não podemos ter total certeza do que Naomi é e isso é fantástico porque não afeta a história dela. E é isso que torna Naomily tão especial, certo? O fato das lutas enfrentadas pelas duas meninas não terem nada a ver com sexualidade, e sim com seus conflitos internos, batalhas pessoais e uma tentando ajudar a outra a vencê-las. Quantos casais de pessoas do mesmo sexo, e quantas personagens (especialmente garotas adolescentes!) assim já foram retratadas na televisão?! Lembre-se: “Gay” não é um traço de personalidade.

RESUMINDO:

Naomi, basicamente, pode ser descrita como uma grande contradição ambulante; mas não do jeito ruim, como se ela fosse uma personagem mal construída. Muito pelo contrário. Naomi Campbell é perfeitamente imprevisível, confusa, incompreensível, indefinível, e, portanto, maravilhosamente humana. E é isso que faz dela uma personagem tão complexa, fantástica, inovadora e relacionável, que se destacou tanto entre fãs e serviu de inspiração e modelo para jovens pelo mundo inteiro.

~Carol e Bia