JJ Jones pode, basicamente, ser definido como um dos personagens mais subestimados e incompreendidos da história de Skins. Sim, ele é incompreendido; muitas pessoas, em atos de preconceito, não veem além de seu exterior e nem sequer tentam entender o que se passa em sua mente, tratando logo de tachá-lo de “chato” e “irritante” (ou, no caso de alguns, chegando até mesmo ao ponto de ignorar completamente sua existência – quantas vezes eu já não vi, no Tumblr, photosets com “todo” o grupo e, no lugar de uma imagem de JJ, alguma com todos ou a logo de Skins?!).

O engraçado é que, de certo modo, o comportamento do fandom reflete exatamente a maneira como pessoas enxergam JJ dentro de Skins. Afinal, essa foi justamente a jornada dele: uma luta para ser aceito e querido, tanto pelos outros quanto por ele próprio. A lição aprendida por ele foi: ele é um menino autista, mas o mais importante é que não devemos, jamais, deixar sua condição ditar sua identidade. JJ tem uma personalidade e traços que o distinguem dos outros, não se limitando a ser um “maluquinho”.

Tendo dito isto, agora vamos ao desenvolvimento de JJ.

Até o 3×03, imagino que o consenso tenha sido que JJ é um menino doce, gentil, meio desajeitado, fofinho. E ele é. Mas há bem mais nele que isso, e o primeiro vislumbre que temos disso é no 3×04, quando Freddie resgata um visivelmente “surtado” JJ da festa na casa de Pandora. Pessoas “normais”, por mais que não se sintam confortáveis em certas situações, não entram em pânico daquele jeito, entram? Por que JJ é assim? Por que ele faz isso? O que ele tem? Essas são as perguntas que provavelmente todos se fizeram ao assistir a cena.

E isso foi apenas uma pista para o que nos aguardava no 3×07. Recapitulando a história até então: Cook, JJ e Freddie eram um trio inseparável, até que Cook e Freddie se apaixonaram por Effy e criaram uma inimizade. JJ, preso bem no meio da briga, está se sentindo mais perdido que nunca, e, sozinho e sem alguém com quem falar, seus acessos de raiva intensificam-se e tornam-se cada vez mais constantes. Acessos de raiva. Não vamos nos esquecer de que JJ é um garoto sem muitas habilidades sociais e que não sabe lidar com suas emoções. Ser impulsivo, perder o controle e quebrar objetos é a saída que ele encontra para descarregar suas frustrações.

JJ tenta expressar seus sentimentos para Dr. Felly, mas ele não ouve e apenas receita remédio atrás de remédio. Para ser justa, Dr. Felly não é um psicólogo ou psicanalista; ele é um psiquiatra. Ele está lá para detectar transtornos comportamentais e tentar consertá-los com comprimidos. Mas os problemas de JJ, neste momento, vão além do autismo. Na verdade, o autismo é a última coisa que importa agora. JJ não precisa, nem jamais precisou, de psiquiatras ou nem mesmo de um psicólogo, e sim de um amigo de verdade. Porque, no fundo, seu problema nunca foi SER diferente. Seu problema sempre foi a falta de alguém que o fizesse perceber que ele NÃO É diferente.

Agora, eu acredito mesmo que Cook e Freddie amam JJ. Mesmo. Mas, infelizmente, amar não significa compreender. Eu amo meu cachorrinho de estimação, mas não faço ideia de como a mente dele funciona e do que se passa ali, certo? Então, é mais ou menos por aí. Cook e Freddie são os dois melhores amigos, que compartilham um épico bromance, e JJ é aquele que sempre está andando junto, fazendo os dois rirem, conversando, os entretendo com truques de mágica, mas sem de fato fazer parte. Uma fala de Freddie que me incomoda muito é “You have to look after him”, no 3×04. Não resta dúvidas de que ele se preocupa e quer fazer o possível para ajudar JJ, mas será que isso é o suficiente? Será que isso significa que ele entende as lutas de JJ, e que por isso quer ser um bom amigo e estar sempre lá por ele? As respostas são não e não. De novo a comparação com um animalzinho de estimação: alguém confiaria na independência do seu e o deixaria passeando sozinho pelas ruas? No momento em que Freddie disse “You HAVE to look after him”, ele quis dizer que JJ não sabe se cuidar sozinho. Que ele precisa de supervisão, de uma babá. Isso acabou tornando JJ dependente de Freddie e seus cuidados, ou seja, tudo o que ele precisava para atingir todo o seu potencial era… se libertar disso tudo. Não é coincidência que logo no 3×08 (isto é, após se afastar de Cook e Freddie e iniciar uma amizade com Emily) JJ está bem mais confiante, até mesmo enfrentando Cook por uma segunda vez.

Já Cook é mais complicado, até mesmo porque, para mim, a descontraída amizade Cook/JJ (o 3×01 e 3×04 são bons exemplos dessa dinâmica divertida que eles têm!) é melhor que o festival de drama que é Cook/Freddie. No 3×01, Freddie foi o primeiro a sair correndo e dizer à menina que mal conhecia que seus dois melhores amigos eram idiotas, e basicamente estava disposto a larga-los naquele instante só para ficar com ela, mas Cook é mais fiel: ele manteve-se ao lado de JJ, se divertindo, apreciando seus truques de mágica. Mesmo Cook tendo dito absurdos como “Everyone’s got to have a mate who’s a twat”, eu consigo bem mais sentir um amor sincero vindo dele, do que de Freddie. Claro que “amor sincero” também não significa que ele seja saudável, e é fato que Cook mais atrapalha que ajuda (os conselhos dele no 4×06!), mas ainda assim dá para notar que as intenções dele são boas. Enquanto Freddie (inconscientemente) vê JJ como um animalzinho, Cook o vê mais como um irmãozinho menor. Por isso sua expressão de choque no 3×08, quando JJ grita “No one wants you here. No one likes you. Just fucking go!” na floresta. Se JJ não estava ao seu lado, quem mais estaria?! Pela primeira vez, Cook foi abandonado pelo único que sempre esteve lá por ele, e eu até acredito que esse foi um dos motivos que o levou a reconsiderar suas ações inconsequentes. Se ele continuasse a agir daquele modo e a estragar a vida dos outros, sem se importar com ninguém, por que JJ se importaria com ele? Por que JJ continuaria a gostar dele? Cook manteve sua fachada cínica durante toda a cena da floresta, mas, se repararmos, a máscara caiu por uns instantes e ele demonstrou tristeza e confusão justamente após ser rejeitado por JJ.

Acima eu falei de JJ precisando libertar-se de toda a confusão envolvendo Cook, Freddie e Effy, certo? Emily foi exatamente quem deu a ele o empurrãozinho para isso. Após o inesperado encontro na clínica, que deu a JJ e Emily a chance de se conhecerem um pouquinho melhor e mudar suas perspectivas sobre o outro, eles inevitavelmente acabaram se aproximando. No final, podemos dizer que JJ perdeu Cook e Freddie (uma amizade que, apesar do claro amor que existe entre os garotos, podia ser bem tóxica às vezes, cheia de desentendimentos e perturbações), mas em compensação ganhou Emily: uma amizade leve, sem brigas, egoísmo ou maiores interesses; apenas os dois e a compreensão mútua.

Lembra de quando eu falei, no sétimo parágrafo, que JJ só precisava de alguém que o fizesse perceber que ele não é diferente? Esse alguém é Emily, e esse foi o papel que ela desempenhou na vida dele. O que me leva à cena final do 3×07, e ao relacionamento de JJ com sua mãe (o quarto dos cinco mais importantes da vida dele!). Bem, para começar, JJ é um dos poucos em todas as três gerações de Skins que têm a sorte de poder dizer que tem pais decentes. É indicado que a mãe dele, Celia, já sofreu/sofre de depressão, coisa que é muito comum entre mães de crianças e adolescentes autistas, pela dificuldade em lidar com a descoberta e o transtorno em si. Mas ela ama seu filho mais que qualquer coisa no mundo, e sua única missão é fazer seu possível para que ele seja feliz. Como vimos no 4×06, às vezes ela o acompanha em consultas, sinal de que ela jamais o deixa “à toa”; Celia é uma mãe preocupada, dedicada e que sempre está atenta a ele, o que é fundamental, não apenas em famílias de crianças autistas, mas em qualquer uma. Como também vimos no 4×06, numa das cenas mais divertidas de Skins, que é JJ e ela cantando músicas obscenas no carro (!), Celia também se esforça para manter uma relação amigável com o filho. Isso é legal porque deixa JJ à vontade em sua companhia, e não o intimida na hora de falar de seus problemas com ela. Em retorno, JJ a ama incondicionalmente também, chegando até mesmo ao ponto de querer melhorar por ela, e recusando a “sair dos trilhos” como Effy. A prioridade de JJ é deixar sua mãe contente, porque de certo modo ele se sente como se fosse um fardo na vida dela. Um doente mental que só serve para estressá-la e deixa-la triste.

Voltando à última cena do 3×07, então: essa é uma das minhas cenas preferidas. Uma daquelas cenas que sempre me alegram, independentemente do que está acontecendo em minha vida no momento. JJ e Emily acordam na manhã seguinte e descem para tomar café da manhã, Emily vestindo uma camisa de JJ que fica grande demais nela. A mãe de JJ fica surpresa, e o menino anuncia, sorrindo (enquanto a menina também sorri, timidamente, ao fundo): “This is my friend, Emily”. Ele e sua nova amiga brincam e conversam animadamente à mesa, e tudo parece tão… normal. Como se eles viessem fazendo isso há anos. Celia observa, e aí ela percebe, com lágrimas nos olhos: o filho dela é normal. Ele já tem uma vida normal. Ele está feliz, e ele continuará sendo. Ele terá um futuro, com sua amiga Emily e outros que virão. Uma namorada. Ele conquistará grandes coisas um dia. E tudo ficará ok.

E, finalizando, vem Lara e o 4×06. Eu gosto do 4×06 por várias razões. Uma delas é que, no meio de uma temporada tão sombria, esse é um episódio mais simples e com um final feliz; meio que me lembrou de que nem só de tragédia a vida vive. A outra é que, apesar de ser um episódio leve, nele temos a chance de ver como JJ evoluiu desde o começo da s3. Como temos visto a partir do 4×01, agora JJ não está mais preso à Cook e Freddie e se aproximou bastante de Thomas e Pandora, um sinal de que ele está mais relaxado. Mas o grande destaque do 4×06 é, JJ tem um interesse amoroso! Lara não apareceu o suficiente para eu poder falar muito dela, mas dá para ver porque o relacionamento dela com JJ funciona: mesmo já estando mais independente, JJ ainda é um adolescente e ele ainda precisa de alguém que esteja sempre ao ao seu lado, falando verdades quando necessário (“You should stop trying so hard”), mas ainda sendo gentil e se importando com ele. Já ela não teve/está tendo a melhor adolescência do mundo: ficou grávida, agora precisa cuidar praticamente sozinha de um bebê e até onde vimos no episódio, nem sombra dos pais dela. Do que ela precisa? De alguém estável, fiel, que faça tudo por ela e não se deixe intimidar por “inconveniências” como Albert. JJ é tudo isso, além de doce e bom com crianças, assim sendo a pessoa perfeita para ajudar Lara, apesar de sua pouca idade.

Para concluir: JJ não tem uma vida ou uma mente conturbada quanto Cook, Emily e Naomi, isso é verdade. Mas o que mais amo nele é que ele, mesmo tendo total consciência de que é capaz de causar muitos estragos, se quiser (olha a facilidade com a qual ele manipulou Cook no 3×07, por exemplo!), escolhe ser uma boa pessoa sempre. E essa é a principal das inúmeras razões pela qual ele é um dos meus personagens preferidos, não só de Skins, como de tudo que eu já vi na vida.

~Carol