Pegue uma comidinha e uma bebidinha que a parada vai longe.

Papo reto, curto e grosso: você não é a Effy. É bom deixar isso claro logo no começo. Porque infelizmente tem MUITA gente que se acha igualzinha a uma PERSONAGEM de TELEVISÃO, inclusive atestando frequentemente na internet que tem os ~mesmos problemas psicológicos~ que ela. De boa, sem ofensas, se uma pessoa tivesse os problemas da Effy, duvido que ela estaria reclamando na internet. Vamos nos amar mais e sermos nós mesmos, combinado? Você vale muito, não se esqueça disso.

Effy é uma personagem interessantíssima e desde o primeiro momento em que apareceu passou a exercer um magnetismo por conta de seus mistérios, envolvendo, aos poucos, todos os outros personagens (principalmente na segunda geração, em que ela tem o destaque) em torno de sua órbita. Só que no fim Effy é tão só uma menina que sempre precisou de ajuda, mas custou a ceder às suas necessidades, camuflando-se e perpetuando-se através de uma máscara, quebrada depois de sua exaustão interna.

Pois bem, imagino o que um telespectador comum pensou ao ver pela primeira vez a Effy no 1×01, chegando toda maquiada, claramente vindo de uma balada, precisando da ajuda do irmão para enganar seus pais e voltar à faceta de boa filha. E assim é a Effy durante o início da adolescência: na frente de quem interessa ela é uma pessoa, quase como uma impostora, e quando não está sendo vigiado ela tenta ser alguém condizente com seus pensamentos internos. No duro, ela é uma manipuladora, assim como seu irmão. Os irmãos Stonem contam um com o outro, sempre, justamente porque não podem contar com seus pais. Jim neglicencia a sua família, não tem paciência ao mesmo tempo que tem medo do Tony e prefere não pensar no que a Effy realmente é. Anthea é problemática, depressiva, que se perde em si e acaba por não dar o necessário ao seus filhos (seria Effy um espelho dela e por isso a filha mostra uma certa indignação com a mãe?). No fundo, os irmãos só podem contar com eles mesmos. Effy não falava, o máximo que se conseguia de reação dela era por meio de olhares, penetrantes. Parece que se você deixa de usar um sentido acaba por aprimorar outro. A língua sumiu, mas os olhos viraram de águia: ela está presente, apenas observando, tomando notas mentais de tudo e todos. E embora ela não seja capaz (e não queira) de se expressar, ela tenta ajudar as pessoas, concertando seus problemas. (exemplo: Cassie/Sid no 2×07 e Tony no 1×09).

Se eu tivesse de escolher um episódio de Skins como exemplo de genialidade e excelência da série, com certeza escolheria o 1×08. OBRIGADA, JACK THORNE, POR UM EPISÓDIO TÃO LINDO E MÍSTICO. O 1×08 não é apenas sobre a garota que não fala. É sobre a cria que foi deixada de lado pelos pais. Quando havia atenção na casa dos Stonem, ela era focada no Tony (creio ser isso um dos motivos dele “brincar” com as pessoas: ele queria ser o centro do universo – até o acidente). Deixaram a Effy crescer por si própria + Tony e isso gerou um vazio nela, como se repelisse qualquer tentativa de amor. Basta ver o unseen “Pop” desse episódio, um vídeo que não é simples de ser entendido. Depois de muito pensar, a interpretação mais plausível é de que, claro, a Effy está falando da relação dela e do Tony com seus pais, mas você deve se atentar ao uso dos pronomes: quando a Effy fala “ela”, na verdade ela descreve o Tony; quando usa “ele”, está falando de si. Então na visão da Effy, ela é como se fosse uma escória esquecida pelos pais, que só prestam atenção verdadeira ao Tony (até em excesso).

Prosseguindo, o 1×08 é muito tenso porque indica que a Effy foi estuprada. Sim, estuprada. E ainda por cima perdeu a virgindade nesse ato. Porque veja bem, ela foi severamente drogada (e ainda por cima tinha só 14 anos) e ficou à mercê do Spencer, que pretendia transar com ela para ajudar seu amigo Josh a humilhar o Tony. No fim, a experiência traumática que eles proporcionaram ao Tony fez com que ele acordasse para o mundo: suas ações podem afetar diretamente quem ama. E, querendo ou não, ele se sentiu responsável pela perca de inocência da irmã. Quando o Tony sofre o acidente e fica em coma, Effy precisa ser forte e tomar conta da situação. Isso fica muito claro por conta desse extra dela visitando o quarto dele enquanto ele está no hospital.

Arrumando a mala do Tony, ela passa a meio que cantar uma cantiga antiga sobre Jack e Jill, onde originalmente ambos iam buscam água na montanha, mas tropeçam e caem ladeira abaixo. Só que veja no vídeo que ela diz que só o Jack tombou (Jack caiu e quebrou sua coroa / e a Jill não voltou rolando ladeira abaixo). Jack é o Tony. Ele caiu (se acidentou) e quebrou sua coroa (está em coma). Jill é a Effy. Ela não voltará rolando tal qual Jack. Ela será forte e descerá normalmente com a água. Tony, se puder me ouvir, fique tranqüilo: eu estou tomando conta de tudo, por mais doloroso que seja (se fechar seus olhos, verá a escuridão; mas se mantê-los fechados o suficiente, e se concentrar firme, verá a luz).

Ela ama, mas qualquer tipo de amor a sufoca. Questiona para que serve o amor. Ele não pode ter nada de bom, uma vez que ela não consegue captar os sentimentos que ele causa. Ao mesmo tempo em que se dá o trabalho de se importar com as algumas pessoas, ela passa a brincar com outras. Parace que não quer relacionamentos, passando até a relutar a ter amigos no começo. Não quer aproximação de gente.

Então chega a terceira temporada. Cook e Freddie passam a ser protagonista de uma constante negação de amor próprio. Só que nesse jogo ela praticamente destrói o Freddie. Desde o momento que ele a viu, passou a ser outra pessoa. Os amigos de toda vida dele, passam a ser “fucking wankers” (creio ser isso que ele diz) a partir do momento em que eles se falam pela primeira vez. Cook se deixa levar pelo jogo, mas quando tem de ceder (e assim teve diversas vezes) se negligenciou para que o Freddie tomasse o posto. O jogo é uma questão de controle, e isso deixa os dois Stonem felizes, mesmo que eles não tenham plena consciência. Tony controlava a Michelle; Effy, o Freddie.

A situação para a caçula, no entanto, sai dos trilhos, como ela mesma disse (3×07). Acontece que seu pilar, o Tony, não está mais presente. E em pouco tempo o seu pai vai embora de casa, ao passo que a mãe fica ainda mais absorta em seu mundo. Basicamente, ela está sozinha. E continua a brincar com os jovens de Bristol. Freddie, no entanto, oferece um amor diferente de qualquer outro, se é que se pode chamar isso de amor. Na realidade, é uma obsessão, uma paranóia, uma idealização que toma conta de si. Todo esse misto de negatividade que os sentimentos do Freddie trazem acaba por fragilizá-la, ao ponto do “coração inquebrável”, se partir: ela não sabe como lidar com essa situação.

Seria Effy uma puta? Muitos dizem que sim, eu já acredito que não. Por que ela seria? Por ter conhecido o Cook e no mesmo transado com ele? Se meninas transam porque há sentimento, é errado. Se transam sem sentimento, é errado também. Não tem como vencer numa sociedade tosca. Seria Effy uma vadia por se vestir da forma mostrada? Aff, na moral, qual é o problema? Até parece que você não gostaria de se sentir desejado (isso não implica em sexo, só que as pessoas lhe desejem). Effy nunca usou o sexo como forma de chamar a atenção (Katie) ou precisou dele como uma arma (Michelle): ela só reagia sem hipocrisia às suas vontades. O “nobody breaks my heart” dela se mostrou uma falácia. E o coração quando despedaçado acaba por liberar todo o acumulado de suas profundezas, tudo de uma vez só. That is why ela tenta se matar e depois há de ser internada numa clínica, que só fez seu quadro piorar, como visto nesse unseen.

As balas a levam a uma outra realidade. Ela se encontra com uma versão mirim dela, deseja voltar à infância, voltar à época das coisas simples e ingênua. Ao mesmo tempo que está com a mini Effy, uma coisa a persegue: a realidade, na forma daquele rosto estranho. Papo vai e papo vem e a mini Effy fica com o “rosto do mal”, meio que indicando: cala a boca, Effy. Não dá para voltar ao passado, assuma as coisas. Ou dá ou desce. Ou sabe brincar ou não desce pro play. Então a mini Effy pede para que ela abra o cisne, cisne este que o Freddie fez no banco no 4×05. Algo como “essa é a realidade. Assuma-a ou mude.” A partir do momento em que o Foster entrou na série, a história da Effy ficou ridícula e perdeu todo o seu sustento do mínimo de realidade. Psicólogo que se apaixona por uma paciente menor de idade e tenta sabotá-la deixando transtornada e transfigurada, além de ir atrás do namorado dela e matá-lo com tacadas de baseball não me parece uma história que deva ser comentada – nem em sonhos.

Vamos aguardar o que o destino reserva para a Effy nessa derradeira temporada especial.