“Eu não comi por três dias para que eu pudesse ser adorável.”

“Boas garotas não engolem.”

A grande vantagem de Skins com relação à outras séries destinadas ao público jovem é que na série é possível se construir cenas não apenas cinematograficamente lindas, como também recheadas de conteúdo e significado, mesmo após retirar-se as doses de irrealidades (que são necessárias para fins lucrativos).

Por trás dos distúrbios alimentares que Cassie e Mini passaram, há um aglomerado de problemas que são comuns a um vasto percentual de jovens. E quando eles não são percebidos e tratados, resultam em marcas profundas e, muitas vezes, incuráveis. Vejamos.

Há uma diferença vital entre se simpatizar com um personagem, se identificar com uma situação que ele passou e idolatrá-lo. A idolatria acaba por cegar a qualquer um e por impossibilitar que se veja as adversidades. Esse é principalmente o caso da Cassie, que é venerada por dizer “ow, lovely”  e não querer comer, quando, na realidade, ela é muito mais que isso.

No duro, Cassie representa aquele sentimento de solidão, de não saber o que fazer, de se sentir impossibilitada de tomar as rédeas de sua própria vida. Ela quer afeição, seja qual tipo que for. Quer apenas alguém que escute seus silenciosos gritos pedindo ajuda, para que ela não se sinta vazia, inútil e, principalmente, solitária. Por conta da atenção negligenciada principalmente por seus pais, o desespero que domina a Cassie passa a se manifestar no distúrbio alimentar e na depressão.

Não se alimentar não é uma coisa legal ou “da moda” e sim uma doença que deve ser tratada e acompanhada por muito tempo, mas foi a forma que a Cassie encontrou de chamar a atenção e buscar o amor de quem tanto queria (lembre-se do 2×09, no auge da honestidade da Cassie: “Eu parei de comer e então todo mundo deveria fazer o que eu queria”). Ela não tinha um problema com a própria imagem, como a Mini tinha. Ela queria atrair as pessoas para sanar sua ânsia de solidão.

Logo no começo do 5×03 nós vemos uma menina que come uma meia dúzia de sementes e uma bananinha. Adicione a essa “grande quantidade” remédios e mais remédios. Mini quer ter seu corpo perfeito (dentro do ideal deturpado de beleza quase que anoréxica) para condizer com sua imagem perfeita, a de abelha rainha.

A popularidade é tudo que importa para ela nesse momento e Mini não poupa esforços em sua busca. Em vez de a chamarmos de vadia, vamos tentar compreendê-la (que é diferente de concordar com suas ações). Com uma mãe que sente ciúmes da juventude dela e mal se preocupa de fato com a filha, a não ser para assuntos de beleza e sexo, e um pai que a abandonou, Mini não encontrou apoio algum no lar, crescendo sempre à base do medo e da insegurança. Mas ela não quer demonstrar isso, principalmente perante a mãe (seria não apenas uma fraqueza, mas assumir a derrota num guerra invisível), então ela sempre viveu com a constante e sufocante dicotomia entre mostrar o que sente e mostrar o que os outros esperam que sinta, que nada mais é que ela ser a linda, forte, poderosa e, claro, ninfomaníaca. Todavia, a Mini é tão só uma adolescente uma adolescente frágil e assustada, como bem definiu a Liv.

Se Cassie não comia para chamar a atenção alheia, Mini controlava sua alimentação freneticamente no intuito de aprimorar cada vez mais a sua imagem exterior e sua fama, como se tentasse cobrir seus defeitos e inseguranças internas com uma máscara, trazendo apenas malefícios para si.